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Como gerar empregos aos engenheiros?

15/01/2021 às 09h00

Crise sanitária intensificou instabilidade econômica no País e teve reflexo direto no mercado de trabalho desses profissionais. Retomada necessária depende de crescimento econômico e investimento público. Leia artigo do Jornal do Engenheiro, publicação do Sindicato dos Engenheiros de SP.

 

Diante de uma pandemia global – que já matou cerca de 2 milhões de pessoas no mundo e mais de 200 mil no País –, todos precisaram mudar, das atividades econômicas ao convívio pessoal e social. O mercado de trabalho foi bastante atingido. O Brasil, que já registrava desemprego preocupante, teve a situação agravada. Segundo pesquisa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), divulgada em 29 de dezembro último, o trimestre encerrado em outubro registrou 14,1 milhões de pessoas desempregadas – um aumento de 7,1% em relação ao trimestre terminado em julho, o que representa 931 mil pessoas a mais à procura de trabalho. “Somam-se a esse contingente mais milhões de desalentados e subempregados, desenhando um cenário extremamente preocupante”, observa o presidente do SEESP e da Federação Nacional dos Engenheiros (FNE), Murilo Pinheiro.

 

Como fica a empregabilidade da mão de obra de engenharia diante deste cenário é o que alguns especialistas e representantes empresariais avaliam nesta reportagem. Debruçado há anos sobre análises conjunturais para apontar soluções ao desenvolvimento do País junto ao projeto “Cresce Brasil + Engenharia + Desenvolvimento”, criado em 2006 pela FNE, o consultor Artur Araújo afirma que a única saída à geração de oportunidades para a área técnica, em grande proporção, é o crescimento econômico. Ele ressalva: “De preferência com bastante distribuição de renda, redução das desigualdades e sustentabilidade ambiental.”

Na 9ª. edição do projeto da FNE, “Recuperação pós-pandemia”, lançada em outubro último, diz Araújo, são apontados alguns vetores para esse crescimento. Um deles, central, é a retomada de obras públicas paralisadas, que, segundo estimativa conjunta da Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC) e do Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai), somam mais de 11 mil em todo o País.

 

Outro importante eixo, prossegue o especialista, é fazer com que as famílias tenham mais renda, emprego e segurança para que “atinjam um patamar de consumo que viabilize o parque industrial e produtivo do tamanho do Brasil, que tem uma população de 220 milhões que necessita de um mercado interno sustentável para garantir o emprego de muitos profissionais, como os engenheiros”.

 

Na sua concepção, só há lugar para estes últimos onde se investe pesado em infraestrutura, pois são profissionais totalmente ligados à produção e ao desenvolvimento. “Um país que não tem investimento pesado nessas áreas é hostil aos engenheiros, não sendo capaz de ocupar as gerações mais novas nem de sustentar os que já estão empregados”, vaticina. Na última década, segundo dados do portal do Conselho Federal de Engenharia e Agronomia (Confea), o Brasil contabilizava 1.013.925 engenheiros.

 

Setores que mantiveram nível de atividade

 

Entre as empresas que viram a demanda aumentar com a crise sanitária, estão as ligadas ao agronegócio. “Foi um ano atípico, é inegável. Tivemos de nos reinventar, mas crescemos para atender às necessidades criadas pela pandemia, considerando os desafios de manter a sociedade alimentada e abastecida”, informa a consultora de Talent Acquisition da Cargill, Nathalia Sobral. Por isso, assevera, de maneira geral, a empresa manteve o nível de emprego anual, criando mil novas oportunidades, além dos programas de estágio e de trainee.

 

Também conforme ela, é alta e crescente a presença de engenheiros na companhia. Em 2020, por exemplo, “das 180 vagas de estágio, 70% foram ocupadas por estudantes da área. E das nove vagas de trainee, 83% foram para recém-formados”. A consultora avisa que, entre fevereiro e março próximos, serão abertos os programas de estágio e trainee de 2021/2022, “e já convidamos os estudantes e recém-formados da área para participarem”.

 

VLI, do setor de logística, é outra empresa que não reduziu o nível das atividades. Como trabalho essencial que deu suporte ao País durante a pandemia na distribuição de mercadorias, a companhia, segundo a supervisora de Atração e Seleção, Kenya Aparecida dos Santos Consceição, manteve os empregos e já projeta investir R$ 1,3 bilhão neste ano. “Nosso desafio, e objetivo, é a geração de mais oportunidades”, afirma ela, garantindo, ainda, que os programas de trainee e estágio serão mantidos.

 

Segundo aponta, as soluções logísticas oferecidas pela VLI na integração de portos, ferrovias e terminais dependem substancialmente da atuação de engenheiros nas diversas áreas. “Atualmente a empresa dispõe de 7,5 mil profissionais. Destes, cerca de 16% são formados ou estão em processo de formação.”

 

Porta de entrada de muitas empresas, os programas de estágio e trainee, destaca o CEO da Companhia de Estágios, Tiago Mavichian, fecharam o segundo semestre de 2020 com aumento de 35% de abertura de vagas ante o primeiro semestre. “Ao final de novembro, foram abertas 948 vagas de estágio em 46 cidades brasileiras, em diversos segmentos da economia, com destaque para químico, farmacêutico, de tecnologia, energia e construção civil. E para este início de ano novos processos serão abertos”, assegura.

 

 

Reestruturação e retomada lenta

 

Diferentemente de setores como logística e agronegócio, outros sentiram fortemente o impacto com a pandemia. O engenheiro Arnaldo Basile, presidente da Associação Brasileira de Refrigeração, Ar-condicionado, Ventilação e Aquecimento (Abrava), afirma que no segmento “várias empresas, especificamente de ar-condicionado, tiveram de rever a forma de atuação”. Algumas reduziram, de acordo com ele, o quadro de pessoal ou optaram por uma segmentação por área, e isso acabou levando muitos trabalhadores a “migrarem para o home office ou a atuarem em projetos pontuais”.

 

As mudanças no mercado também foram sentidas pela headhunter Isis Borge, diretora da empresa Talenses Group, para quem o ano de 2020 “foi bastante desafiador não apenas para os engenheiros, mas para todos os profissionais”. A pandemia, salienta ela, fez com que as empresas revissem planos de contratações por conta das incertezas econômicas. “Muitos projetos de desenvolvimento foram paralisados, houve suspensão de contratos, redução de jornadas. Nunca tínhamos passado por uma crise sanitária dessa ordem, com distanciamento social e até lockdown [confinamento]. Esse cenário congelou vagas novas e até promoções.”

A retração atingiu o engenheiro mecânico Vinicius Clemente Diogo, de 36 anos, cujo último cargo foi de gerente industrial numa grande empresa automotiva, em Contagem (MG). No início de 2020, ele estava em transição de carreira quando a pandemia chegou ao Brasil, logo após o Carnaval. “De março até setembro último, as entrevistas cessaram. Obtive alguns contatos de headhunters, mas somente para compor banco de dados, para quando o mercado retornar já termos os perfis traçados”, relata. Todavia, Diogo acrescenta, em outubro, algumas empresas reiniciaram as entrevistas em formato online.

 

Borge avalia que essa retomada será “morna”. E aponta: “Algumas dessas vagas congeladas em março retomam agora, mas ainda muito lentamente. A situação também se reflete no salário, não estamos verificando aumentos em grandes cargos que demandam o profissional de engenharia.”

 

Diogo lamenta que o desemprego seja usado por algumas empresas para contratarem engenheiros como analistas, e pagando salário inferior. Aqui vale destacar que o piso da categoria é determinado pela Lei 4.950/A-66.

 

 

Inovação

 

Para o presidente da Abrava, é difícil estabelecer números e parâmetros sobre a empregabilidade da mão de obra de engenharia em 2021. Não obstante, acredita que, de maneira geral, o setor de climatização propiciará novas oportunidades para profissionais especializados ou que vierem a se especializar.

 

Por outro lado, Basile faz projeções para a engenharia no País: “Destaco as modalidades de produção, para garantir ganhos de produtividade e otimização de processos; agronômica, que há anos propicia ganhos econômicos extraordinários para a economia brasileira; e civil, com a demanda por novas tecnologias construtivas das edificações com o uso intensivo da tecnologia BIM [Building Information Modeling]. Por último, evidencio a atuação do nosso profissional com automação e inteligência artificial (IA), em razão do uso de tecnologias no touch [sem toque], de sensores de presença, leitores óticos ou por aproximação etc..”

 

Essa realidade também é percebida pela supervisora da VLI, o que significará, observa, para equipes de engenharia trazerem automatização e inovação para os processos e torná-los mais ágeis. “Nas operações, os engenheiros têm uma importante missão de pensar esse novo modelo de trabalho, reduzindo o esforço físico e o aumento da produtividade. Por esse motivo, características como criatividade, inovação, learning agility [aprendizado rápido], conexões e o relacionamento em rede serão cada vez mais procuradas pelo mercado”, aponta.

 

Em mensagem enviada à reportagem, a assessoria de comunicação da Confederação Nacional da Indústria (CNI) declarou que a entidade não tem “informações específicas sobre a empregabilidade da engenharia para este ano”, mas encaminhou o Mapa do Trabalho Industrial, abrangendo o período de 2019 a 2023 — produzido, contudo, antes da pandemia, com estimativas de demandas ocupacionais e por qualificação profissional. A projeção indica o aumento da oferta para diversas engenharias, como ambiental, agrimensura, cartográfica, de alimentos, mecatrônica.

 

 

Orientação à carreira

 

O SEESP oferece orientação à carreira com o serviço da área Oportunidades na Engenharia. Trata-se de uma solução profissional personalizada, elaborada por especialistas, ao encontro do objetivo do associado, que pode envolver desde a colocação para estágio, trainee, emprego ou trabalho autônomo.

 

Conforme a gestora da área, Alexandra Justo, o atendimento é amplo e realizado conforme a necessidade do profissional ou estudante. “Vamos atuar desde a validação curricular, inserção em plataformas digitais, orientação focada e simulações para participação em processos seletivos, desenvolvimento de portfólio, orientação e desenvolvimento de soft skills, grande enfoque em competências atitudinais.”

 

Para Justo, com a esperada vacinação contra a Covid-19, “podemos aguardar uma retomada com melhor segurança das vidas, economia, dos trabalhos”. A posição é reforçada pela headhunter Isis Borge: “Muitos projetos continuarão represados até a população estar vacinada.”

 

 

 

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