[20/11: Dia da Consciência Negra] Conheça a história dos primeiros engenheiros negros do Brasil

20/11/2020 às 14h56

No Dia da Consciência Negra, o SENGE te convida a conhecer a história dos Irmãos Rebouças, os primeiros engenheiros negros do Brasil. Nascidos na Bahia, Antonio e André Rebouças são os responsáveis por, entre outras conquistas, termos hoje a cidade de Curitiba como a capital do estado do Paraná. 

 

Os irmãos Rebouças são considerados os primeiros afrodescendentes brasileiros a cursar uma universidade e os dois maiores engenheiros do Brasil no século XIX. O caminho profissional traçado por eles parece ter vindo de uma inspiração familiar. O pai, Antonio Pereira Rebouças, era filho de uma escrava alforriada e de um alfaiate português e foi um dos poucos advogados negros a ocupar um cargo relevante no período do Brasil Imperial. Atuou também como conselheiro de Dom Pedro II. Em razão do fato de serem negros, eles sempre enfrentaram percalços de natureza burocrática ou preconceituosa. 

Obras

Após concluírem a trajetória acadêmica na Europa, os irmãos se especializaram na construção de estradas. Ao desembarcar no Paraná, assumiram parte da responsabilidade de transformar uma província ainda em construção. Em 1864, uma década depois da Emancipação de São Paulo, iniciaram sua trajetória na região. O chafariz na Praça Zacarias, em Curitiba, a Estrada da Graciosa, a Ferrovia Paranaguá-Curitiba (considerada a maior obra da engenharia férrea nacional) e o Parque Nacional do Iguaçu são alguns dos legados dos engenheiros.

O jornalista e pesquisador Jorge Narozniak, no livro Histórias do Paraná (2010), escreveu que a primeira missão dos Rebouças foi comandar a construção da Estrada da Graciosa, que desde 1854 estava sendo idealizada para ligar o planalto ao Litoral Paranaense. Em 1864, Antônio foi nomeado engenheiro-chefe da Estrada e formulou o projeto do empreendimento.

A construção da estação ferroviária em Curitiba alavancou o desenvolvimento da cidade, que, até meados dos anos 80 do século XIX, não ia muito além da Rua Marechal Deodoro, então conhecida como Rua do Imperador. A nova estação, que teve a localização sugerida pela Câmara de Vereadores, fez surgir a Rua da Liberdade, posteriormente batizada como Barão do Rio Branco, cuja importância econômica só rivalizava com a Rua do Mato Grosso, atual Comendador Araújo.

A presença de dois prédios públicos na Rua da Liberdade (Palácio da Liberdade, sede do executivo estadual, e Palácio do Congresso, sede do Legislativo) emprestou à rua uma importância que se consolidaria com a inauguração, em 1912, do prédio do Paço na Praça Municipal (hoje Generoso Marques).

A região localizada atrás da Estação Ferroviária ganhou contornos industriais com a instalação de fábricas diversas. A presença de extensas vias ligando esta região à parte sul da cidade fez com que ela também ganhasse importância estratégica.

Rio de Janeiro

André realizou no Rio de Janeiro várias obras que lhe conferiram projeção como engenheiro civil, a exemplo do plano de abastecimento de água para a cidade, durante a seca de 1870, a construção das docas da Alfândega e das docas D. Pedro II. Permaneceu nessa atividade de 1866 até novembro de 1871, quando inesperadamente se demitiu.

Após a morte do irmão Antônio em 1874, muito abalado, resolveu tomar parte de sociedades empenhadas na luta contra o trabalho escravo no país. Engajado na campanha abolicionista, ao lado de Machado de Assis e Olavo Bilac, foi um dos representantes da classe média brasileira com ascendência africana e uma das vozes mais importantes em prol da abolição.

Participou da fundação de algumas dessas sociedades, tais como a Sociedade Brasileira Contra a Escravidão e a Sociedade Abolicionista, criadas juntamente com seus alunos da Escola politécnica. No ano de 1883, após viagem aos Estados Unidos e Europa retorna resolvido a dar continuidade às campanhas contra a escravidão no Brasil, já animadas pelas manifestações de rua e pelos debates parlamentares.

A abolição assinada pela Princesa Isabel acirrou os ânimos dos grandes proprietários de terras, culminando com o movimento militar de 15 de novembro de 1889 e a proclamação da República. Fiel ao Imperador D. Pedro II e ao regime monárquico, André embarcou juntamente com a família imperial no paquete Alagoas com destino ao exílio na Europa.

Inicialmente, André permaneceu em Lisboa, com intensa atividade como jornalista correspondente do “The Times” de Londres. Porém logo transferiu-se para Cannes, na França, onde ficou até a morte de D. Pedro II.

Financeiramente arruinado, aceitou emprego em Luanda, na África, por pouco tempo, mudando-se posteriormente para Funchal, na Ilha da Madeira, em meados de 1893. André jamais retornaria à Europa ou à sua terra natal. Seu precário estado de saúde e intenso abatimento pelo exílio cercou de mistério sua morte, aos 60 anos.


Irmãos são lembrados em várias obras Brasil afora

Uma das obras mais conhecidas do Rio de Janeiro, o Túnel Rebouças leva este nome em homenagem aos irmãos. Próximo à entrada do local, na Praça José Mariano Filho, foram construídos bustos para lembrar a contribuição dos Rebouças.

 Além disso, a administração pública de Curitiba também  homenageou os irmãos Rebouças batizando não só uma das ruas dessa região com o nome de Engenheiros Rebouças, mas toda a região. Hoje, o bairro Rebouças é uma das localidades mais valorizadas de Curitiba e sua importância histórica é inegável para o entendimento da dinâmica da cidade.

Cada passo para a consolidação de Curitiba apresentou seu grau de dificuldade, mas iniciativas de engenheiros como os irmãos Rebouças foram imprescindíveis. O nome dos Rebouças sintetiza o espírito empreendedor e ousado.

Os irmãos também são homenageados em São Paulo, com a Av. Engenheiros Rebouças. 

 

ENEDINA ALVES MARQUES, A PRIMEIRA ENGENHEIRA NEGRA DO BRASIL

Também é importante lembrar de Enedina Alves Marques, que foi a primeira mulher a se formar em Engenharia no estado do Paraná e a primeira engenheira negra do Brasil.

A engenheira era filha de um casal de negros provenientes do êxodo rural após a abolição da escravatura em 1888. A família chegou em Curitiba em busca de melhores condições de vida. Se formou em Engenharia Civil na atual Universidade Federal do Paraná, no ano de 1945. Era a única mulher de sua turma.

Enedina participou da construção da Usina Capivari-Cachoeira, que é a atual Usina Governador Pedro Viriato Parigot de Souza. A obra é a maior central hidrelétrica subterrânea do sul do país.


*Texto adaptado, fonte INBEC

 

Leia Também