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ENTREVISTA: VICE-PRESIDENTE JOSÉ LUIZ AZAMBUJA FALA SOBRE O MERCADO DE TRABALHO E A RETOMADA DO CRESCIMENTO NO PAÍS

O dirigente do SENGE comenta os reflexos diretos da crise no mercado de trabalho da Engenharia e destaca a importância do planejamento de Estado, favorecendo a produção de bens e serviços em detrimento da atual política econômica praticada pelo governo.

As condições do mercado de trabalho de Engenharia são o reflexo direto dos índices de crescimento do País, conforme apontou o jornal Estado de São Paulo em matéria publicada no dia 2 de julho (Crise e Lava Jato fazem diploma de engenharia voltar para a gaveta).

A publicação resgata a forte crise dos anos 80, lembrando o caso do profissional desempregado que uma lanchonete em São Paulo com o nome de  O Engenheiro que Virou Suco, e relaciona com o atual momento enfrentado pelo mercado de trabalho. Desde 2014, o número de engenheiros demitidos é maior que o de contratados, segundo dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), do Ministério do Trabalho. O saldo de vagas fechou 2016 em queda de 20,7 mil.

O jornal ainda destaca outros pontos que, somados à crise, travaram o andamento de grandes obras de infraestrutura, colocaram a Petrobrás no centro dos escândalos de corrupção e derrubaram o preço do barril do petróleo atingindo em cheio uma das áreas da Engenharia mais promissoras.

Leia a entrevista do vice-presidente do SENGE, José Luiz Azambuja, sobre a atual situação do mercado de trabalho da Engenharia.

O conteúdo da reportagem “Diploma de engenheiro volta para a gaveta” do Estadão do final de semana é uma ducha de água fria para milhões de engenheiros e estudantes de engenharia. O que dizer para estes segmentos? Qual a saída?

Infelizmente estamos vivendo mais um período recessivo na economia brasileira, resultado de uma série de fatores que se somaram a partir de 2013 para cá. Além da queda brutal nos preços do petróleo, cujo reflexo foi imediato na exploração do Pre-Sal e, consequentemente com impacto em toda cadeia produtiva da engenharia naval, tivemos uma conjunção de crises nas esferas moral, ética, econômica que desembocaram na atual crise política, sem precedentes na história brasileira. As consequências desse quadro foram imediatas em toda economia com retração de investimentos em todas as áreas, especialmente nas grandes obras de infraestrutura e na construção civil. O resultado disso se abate direto na engenharia que talvez seja a atividade mais impactada. Em 2011 se falava na possibilidade de escassez de engenheiros porque a economia crescia em torno de 3 a 3,5% ao ano e se projetava para os próximos anos crescimento de 4% ou mais. Isso não ocorreu e já em 2013 o crescimento foi de apenas 2%, sendo que, de lá para cá, tivemos estagnação e quedas no PIB. A consequência disso na engenharia é que, desde 2014, o número de engenheiros demitidos é maior que o número de engenheiros contratados segundo o CAGED que registrou em 2016 um saldo negativo de quase 21 mil vagas.

A saída é voltar a crescer. Para isso o País precisa superar a crise atual, retomando investimentos, mantendo e aprimorando o apoio ao agronegócio que tem sido o setor menos afetado pela crise, e mantém aumentos importantes de produtividade, mas cujos resultados positivos são impactados com aumentos de custos devido à enormes deficiências de infraestrutura (transporte, armazenagem, portos, etc.) o que acaba diminuindo a competitividade. Atenção especial, portanto, deve ser dada principalmente em obras de infraestrutura e logística, e também na construção civil. É fundamental mudar a política recessiva que vem sendo imposta pela equipe econômica que favorece ao rentismo em detrimento de investimentos que visem aumentar a produção de bens e serviços. É preciso debater um projeto de nação que nós queremos. É preciso que o Estado brasileiro pare de ser esvaziado, enfraquecido na sua capacidade técnica e retome suas funções de planejamento de médio e longo prazo, criando e implementando projetos e programas de Estado e não de governos, estimulando a educação, investimentos em ciência e tecnologia e retomando a política de conteúdo local nas diversas atividades ligadas à indústria naval e outros setores como metal-mecânico e eletroeletrônico.

Qual o papel do Sindicato e da Federação neste momento e nestas circunstâncias?

Um Sindicato e uma Federação de Engenheiros têm o dever de participar ativamente dos debates e contribuir com ideias e sugestões que visem reverter o quadro caótico que estamos vivendo no Brasil. Em primeiro lugar, a luta deve ser pela preservação do estado democrático de direito e o pleno funcionamento das instituições. Em segundo lugar, é nosso dever alertar as autoridades para a necessidade do resgate do papel do Estado em todos os níveis, de voltar a planejar a médio e longo prazo, assumindo assim o Estado, seu papel de indutor do crescimento. Em terceiro lugar, devemos apresentar propostas viáveis para desenvolvimento do País. Neste sentido, tanto o SENGE-RS através de diversos Seminários promovidos aqui no Rio Grande do Sul que apontam alternativas para superação da crise das finanças públicas do nosso Estado, quanto a Federação Nacional dos Engenheiros – FNE, com o projeto Cresce Brasil, mais engenharia e mais desenvolvimento, estão fazendo a sua parte e dando a sua contribuição. Temos que continuar esta caminhada e esta luta e, para tanto, está em curso um chamamento à categoria para somar esforços no movimento que denominamos de Engenharia Unida e que visa fortalecer propostas para superação da crise brasileira.

Para os engenheiros e para a engenharia brasileira este ciclo recessivo perverso não é novidade. Só que desta vez, a “culpa” não vem de fora para dentro. Onde está o gargalo do planejamento?

O gargalo é exatamente não ter planejamento. É preciso retomar com vigor, e cabe ao Estado fazer isso, a concepção de políticas públicas voltadas ao interesse da sociedade. Hoje em dia o que se vê é uma espécie de concessão do planejamento para a iniciativa privada que, obviamente proporá obras e investimentos que lhes sejam convenientes desde o ponto de vista do lucro. Isso determina tecnologias e custos que serão consequências das decisões. Por isso é importante, na área da engenharia que as obras e investimentos em infraestrutura sejam resultados de planejamento voltado aos interesses da sociedade. Além disso, é importante aperfeiçoar a Lei de Licitações e fechar eventuais ralos que favoreçam à corrupção. Em obras de engenharia não se pode dispensar o projeto completo para licitar, ao contrário do que foi feito por exemplo para muitas obras da Copa através do famigerado Regime Diferenciado De Contratação, um desvio da Lei 8.666, que permitiu contratar obras com projetos incompletos viabilizando aditivos que, ao fim e ao cabo, representaram acréscimos consideráveis de custos em prejuízo à sociedade. Também é necessário aperfeiçoar os controles e, nos casos de corrupção como aqueles já revelados pela operação Lava Jato, é preciso punir os CPFs preservando os CNPJs.

Poderia haver uma proposta de consenso para as Eleições de 2018 visando a retomada do desenvolvimento, ou a política atrapalha?

A política é a melhor maneira de superar impasses. Pelo menos deveria ser. O problema é que no Brasil de hoje, o capital domina a política e ela deixou de ser o ponto de equilíbrio necessário entre o capital e o trabalho. Isso precisará ser debatido nas eleições de 2018 e, a classe trabalhadora precisará prestar muita atenção e escolher com muito critério quem serão os seus representantes. É preciso voltar a se fazer política no Brasil com “P” maiúsculo e limpar os legislativos e executivos da fisiologia e clientelismo. Não é tarefa fácil mas, é necessária. Ainda não vislumbro no horizonte de 2018 uma candidatura capaz de pacificar o Brasil e apresentar um projeto que possa atender aos interesses em jogo, com responsabilidade e equilíbrio.

O governo federal aponta para as reformas trabalhista e previdenciária como base de sustentação inarredável para a retomada do crescimento econômico. O que lhe parece?

Me parece uma clara opção pelas decisões do consenso de Washington para favorecer o capital. Não estamos, neste momento de governo instável e sem apoio popular, com alto índice de rejeição, em condições de realizar um debate dessa envergadura. É um equívoco a aprovação dessas reformas que só atenderiam aos interesses do nefasto “mercado” que, nada mais são do que os interesses financeiros. Haverá um enorme retrocesso e levaremos muitos anos para nos recuperar deste duro golpe. O que propicia a retomada do crescimento econômico é estabilidade política, abertura para o diálogo verdadeiro entre capital e trabalho e habilidade política para construir um mínimo de consenso que permita a retomada. As reformas propostas só farão aguçar o clima de divergências e incertezas.

 

 

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