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Aquecimento Global cria clima de extremos no RS

O jornal Correio do Povo publicou neste domingo (5) entrevista com o professor de climatologia do Departamento de Geografia da UFRGS, Francisco Eliseu Aquino, sobre os impactos das mudanças climáticas no Rio Grande do Sul.

Aquino é um dos palestrantes do Seminário Agricultura, Desenvolvimento e Combate à Crise, que será realizado no dia 16 de junho pelo SENGE. As inscrições são gratuitas. Conheça a programação e garanta já a sua presença.

Conhecido por liderar expedições ao continente Antártico, e já foram 15, o geógrafo e professor de climatologia do Departamento de Geografia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) Francisco Eliseu Aquino prevê a intensificação da ocorrência de tempestades como a que atingiu Porto Alegre em 29 de janeiro, com ventos de até 120km/h que derrubaram mais de 3 mil árvores. A questão é saber em que dia, horário e local vai acontecer. Aquino – que participou do documentário “Mudanças do Clima, Mudanças de Vidas no Brasil” feito pelo Greenpeace-Brasil – diz que as maiores tempestades ocorrem no Sul do Brasil. “É de se esperar, nesse cenário de aquecimento e aumento de precipitação, que as tempestades se tornem mais vigorosas e intensas em qualquer estação do ano. ”

Aquino defende também que as discussões sobre mudanças climáticas sejam mais difundidas. “A maior parte da sociedade brasileira entende que as mudanças climáticas são reais e estão presentes na atualidade e entende que o homem é o principal fator responsável por ela. O problema atual é que o cidadão reconhece isso, mas não pratica no seu dia a dia.” Aquino afirma que, para o Estado continuar gerando riqueza e benefícios, é necessário um ambiente o mais preservado possível.

Quais os impactos das mudanças climáticas para o Rio Grande do Sul?

Dentro do cenário de mudanças ambientais globais e climáticas, o aumento de temperatura na América do Sul tem contribuído para a formação de chuva mais intensa, por consequência, tempestades, e também ondas de calor, estiagens, secas e ondas de frio. O aumento da temperatura média global tem criado um contraste mais marcado entre a região Antártica e a região Amazônica e a posição do Rio Grande do Sul no caminho – entre as massas de ar frias e as massas de ar quente e úmidas que vêm da região Amazônica ou do trópico. O que observamos neste cenário de mudança climática global e seu efeito no Sul do Brasil é uma intensificação dos contrastes. O Estado sempre teve as quatro estações do ano bem marcadas. O que observamos é que a intensidade desses fenômenos está aumentada e, claro, a sequência desses eventos se tornam importantes. O Estado deverá sofrer nas próximas cinco décadas com esses incrementos climáticos em todas as estações do ano. É uma característica esperada para regiões no planeta que tenham as mesmas semelhanças que o Rio Grande do Sul, por conta da Mudança da circulação geral da atmosfera.

Quais os fenômenos climáticos observados hoje podem ser atribuídos ao aumento da temperatura da Terra?

É importante dizer que a atual tendência de aquecimento global é marcada pelas atividades antropogênicas, ou seja, o sistema climático da Terra fugiu do controle natural. Podemos afirmar que os eventos mais extremos devem estar ligados ao aquecimento global. Sempre tivemos chuvas, tempestades, ondas de frio e calor, só que elas estão mais intensas e deslocadas no tempo e no espaço. É de se esperar para o Rio Grande do Sul o aumento na temperatura média. O Estado já está 0,8 grau mais quente na média anual, Inverno, outono e primavera estão mais quentes se comparado com 30 ou 60 anos atrás. Chove entre 10% e 12% mais hoje no Estado do que há 60 anos. Os efeitos da mudança climática: aumento da temperatura média geral para todas as estações, menos observado no verão. Mas, ao mesmo tempo, percebemos no Rio Grande do Sul o aumento da frequência de secas e estiagens. Tem chovido mais e com muita intensidade – com o registro de tempestades severas principalmente no norte e noroeste do Rio Grande do Sul -, com prejuízos na agricultura, nas áreas urbanizadas e ao meio ambiente. Temos desmatamento, erosões do solo, deslizamentos e inundações. É importante registrar que em um cenário nas últimas duas ou três décadas em que chove em média 10% a mais no Estado. Em razão desses eventos no clima, a vida da população ficou mais difícil e mais cara no Sul do Brasil, com sérios prejuízos na economia, na agricultura e no turismo. Temos alagamentos e destruição de cidades turísticas, que deixam de atender o turista em algum momento em razão dos fenômenos climáticos. A mudança climática tem tido um impacto muito forte em diversos setores da economia gaúcha.

Quais as regiões do Estado que serão ou estão sendo mais atingidas? De que forma?

De forma geral, todo o Rio Grande do Sul está sofrendo o impacto de chuvas mais intensas, de temperaturas extremas ou da falta de chuva. É bom destacar que em 2015 tivemos o El Niño mais intenso deste século e sofremos muito com inundações e enchentes em praticamente todo o Rio Grande do Sul. Ainda observamos prejuízos do El Niño de 2015 na economia gaúcha. O El Niño é um fenômeno totalmente natural, mas veio combinado ao ano mais quente do século. O aquecimento global e o El Niño amplificaram esses efeitos. Todo o Estado sofreu com temperaturas acima da média e com tempestades e chuvas extremas. O alerta da universidade para o gestor público e para os empresários é que façam investimentos em pesquisas na área do clima e invistam na divulgação do serviço de previsão do tempo para a sociedade.

O que podemos esperar daqui pra frente como consequências das mudanças climáticas?

A principal expectativa para o planeta é ainda a manutenção e continuidade do aumento da temperatura média, a expansão de epidemias na região equatorial e a sua propagação para regiões subtropicais, por exemplo, o Rio Grande do Sul. Eventos ou condições climáticas extremas de estiagem, seca, inundações ou temperaturas acima ou abaixo da média e ondas de calor, com madrugadas muito quentes, são fenômenos esperados globalmente e no Rio Grande do Sul em especial. A posição geográfica do Estado frente à circulação geral da atmosfera no nosso hemisfério, torna o Estado beneficiário pela chegada de humidade e pela manutenção das chuvas que vêm da Amazônia, mas também o torna vulnerável à entrada desses sistemas.

Quais medidas precisam ser tomadas agora, especialmente no Estado, para lidar com as consequências do desequilíbrio do clima?

A principal é a conscientização e o entendimento da população sobre o impacto das mudanças climáticas. A partir deste entendimento, do engajamento de todos, a nossa iniciativa deveria ser a manutenção de uma melhor qualidade ambiental. A primeira medida poderia ser a manutenção de uma melhor qualidade ambiental. A primeira medida poderia ser uma melhor arborização das cidades, ou seja, com árvores adequadas (porte e tamanho) ao tipo de avenidas e ruas das cidades. Partimos também para uma mais intensa seleção e organização do nosso lixo. Proteger os nossos mananciais e matas ciliares, um uso do solo mais adequado. Tudo isso torna o ambiente mais saudável para a nossa vida e torna o Estado mais resiliente ao impacto de eventos severos. O cidadão exigir do seu legislador municipal ou estadual que as questões ambientais passem a ter prioridade junto com as de saúde, educação e economia. Para o Estado continuar gerando riqueza e benefícios, é necessário um ambiente o mais preservado possível. Esse desafio é enorme principalmente nas cidades médias do Rio Grande do Sul, devido à expansão humana.

O Estado corre o risco de tempestade severas como a que ocorreu em Porto Alegre em 29 de janeiro deste ano?

Sempre. Um trabalho recente de uma aluna de Mestrado em Geografia mostra que na América do Sul ocorrem as tempestades mais severas. As maiores ocorrem sempre no Sul do Brasil – Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. É de se esperar, nesse cenário de aquecimento e aumento de precipitação, que as tempestades se tornem mais vigorosas. A tempestade que atingiu Porto Alegre no início deste ano, com alto grau de destruição em uma região urbana densamente ocupada, poderá ser 5% ou 10% mais intensa. Se você torna as regiões mais quentes com o forçamento de evaporação e formação de nuvens mais facilitadas, a tempestade tende a crescer. Isto não aconteceria se não tivesse mais umidade e a temperatura global diminuísse, o que não acontece há mais de um século. O planeta tem hoje a temperatura mais quente e ela não é causada por nenhum efeito da natureza. Tivemos 2015, o ano mais quente do século. 2016 vai ser igual. Janeiro, fevereiro e março de 2016, foram os meses mais quentes dos últimos 100 anos. O janeiro mais quente dos últimos 100 anos foi o de 2016. Os 12 meses consecutivos mais quentes do século foram os de 2015. A década mais quente foi a última década e a anterior também havia sido quente. A expectativa é que essas tempestades se tornem mais frequentes e intensas em qualquer estação do ano. E é no Sul do Brasil que vão acontecer essas tempestades severas. A única questão é saber em que dia, horário e local em que vai ocorrer tempestade semelhante a do dia 29 de janeiro de 2016, que assustou Porto Alegre.

A conscientização da sociedade sobre mudanças climáticas começa na escola?

Sempre. A maior parte da sociedade brasileira entende que as mudanças climáticas são reais e que estão presentes na atualidade, e entende que o homem é o principal fator responsável por ela. O problema atual é que o cidadão reconhece isso, mas não pratica no seu dia a dia uma atitude positiva. Um exemplo, uma pessoa compartilhar o carro com os vizinhos, uma vez por semana é difícil, mas a carona solidaria ajudaria o meio ambiente. Ou ainda deixar o carro em casa e utilizar o transporte público (ônibus, lotação ou trem). Essas ações são importantes para o planeta. A mudança climática, suas causas e efeitos, não é responsabilidade apenas dos países mais poluidores ou dos países do Hemisfério Norte. Ela é global. Quanto melhor o cidadão consumir os seus recursos de energia elétrica ou planejar os seus gastos será melhor para a qualidade de vida. Tudo isso vai beneficiar o meio ambiente. Nos últimos anos, o Brasil, infelizmente, tem tido experiências duras com relação à falta d’água, à expansão de doenças associadas a mudanças ambientais e à falta de energia elétrica. Todo mundo sentiu no bolso o efeito de não cuidar do meio ambiente.

Fonte: Jornal Correio do Povo (por Claudio Isaías)



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